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abril 10, 2006

OS DIAS FELIZES DE SAMUEL BECKETT

os dias felizes de samuel beckett

Winnie é uma personagem que cria o seu presente a partir de fragmentos de uma existência anterior. Está a afundar-se na terra. No Acto I está enterrada até à cintura, e passa o tempo entre a campainha que toca para acordar e a que toca para dormir tentando envolver Willie – o seu companheiro – na conversa, evocando memórias de uma vida anterior, em que a mobilidade era possível, contando histórias a si própria e remexendo nos seus objectos dentro do saco. O seu conflito interior reside no facto de o seu interlocutor lhe poder falhar e ter que passar a falar sozinha, coisa que não poderá suportar.

Na condição em que se encontra, é absolutamente necessário que encontre forma de passar o tempo “à moda antiga”, de forma a minimizar as adversidades que enfrenta, dia após dia. Assim, não pode parar de falar, para se obrigar a não pensar no que a atormenta, como não pode prescindir dos seus objectos, recordações palpáveis do que ela já foi e pode (enquanto os puder usar) continuar a ser, vivendo assim um “dia feliz” de cada vez.

Winnie tem necessidade da possibilidade de um ouvinte que confirme a sua existência passada. Apesar das respostas de Willie não serem frequentes e muito raramente mais do que monossilábicas, elas permitem que Winnie fale, como ela diz, “à moda antiga”. De qualquer modo, ela está ciente de que, algures no futuro, o seu raciocínio será tão fragmentado que as próprias palavras a irão abandonar.


No Acto II ela está próximo desse ponto. Está enterrada até ao pescoço e desabilitada de recorrer às rotinas que desenvolveu em torno do manuseamento dos seus objectos, para a ajudar a passar o dia. Willie está agora fora do alcance da sua vista, e como tal, deixa de ser ponto de referência constante do seu discurso. Começa a perder contacto com as imagens e memórias que confirmavam anteriormente a sua noção de si própria, de modo que estas lhe ocorrem de forma dispersa e fragmentada.


O único objecto que consegue ver claramente é o revólver, que tinha no saco e ficou cá fora. No final do texto, Willie reaparece, “vestido para matar”. A sua aparição, e a sua última palavra – Win – provoca uma última intervenção “à moda antiga” – Winnie canta a valsa da Viúva Alegre. A letra arrebatadoramente romântica da canção contrasta largamente com a estranheza e a ambiguidade da imagem final. Willie pode querer alcançar a sua mulher ou o revólver, para ser usado nela ou em si próprio. Em qualquer dos casos, Beckett deixa-nos uma irremediável mudança no universo da peça, mas deixa a natureza dessa mudança por resolver. Assim, a relação entre Winnie, que fala, e Willie, que talvez ouça, não pode ser re-criada. A existência de Winnie não pode ser mais confirmada “à moda antiga”.

Publicado por 555 às abril 10, 2006 03:49 PM

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